Normalizando o abuso

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/06/2024)

Perante a apatia ou o conformismo geral, caminhamos passo a passo para uma sociedade policial, disfarçada de justiceira.


Os meses em que trabalhei na Comissão de Extinção da PIDE, logo a seguir ao 25 de Abril, se bem que não tenham servido para nada em termos práticos, serviram-me a mim de lição para a vida, em termos pessoais. Prestes a terminar a licenciatura em Direito, ocupei-me com entusiasmo da investigação de alguns dossiês que, julgava eu na minha ingenuidade, iriam servir para levar a PIDE e os seus agentes a julgamento pelos crimes cometidos contra os poucos que haviam resistido ao sufoco da ditadura do Estado Novo. Não serviu para isso, pois que a PIDE tinha os seus cúmplices e o esquecimento dos seus crimes tinha as suas vantagens. Mas, enquanto levava a cabo as investigações, aconteceu-me por vezes tropeçar em transcrições de escutas telefónicas que a PIDE montara a diversas personalidades da resistência. Quando isso sucedeu, experimentei um imediato instinto de nojo, quase físico, que me impediu até de ler aquilo na íntegra e me fez jurar a mim próprio que jamais contaria a alguém que, por acaso e por azar, tinha tido acesso a conversas de telefone de fulano e beltrana. Porque creio que nem os próprios escutados se dão conta na plenitude do que é o conteú­do de uma escuta telefónica onde uma pessoa fala com outra de forma absolutamente despreocupada e julgando-se segura: está ali tudo sobre a vida dessa pessoa, não apenas o que possa interessar a uma investigação criminal, legítima ou ilegítima, mas tudo o mais — a sua vida conjugal, extraconjugal, familiar, amorosa, íntima, profissional, económica, a sua situação de saúde, as suas dívidas ou compromissos, os seus pensamentos reservados sobre os outros, enfim, todos os impartilháveis segredos que cada um de nós tem. Até hoje, custa-me entender que quem faz profissão de escutar as conversas ­alheias não tenha o mesmo sentimento de nojo que eu senti.

A Constituição e o Código de Processo Penal por que nos passámos a reger após 1974 — dois documentos que são uma espécie de marca de água de um Estado de direito — reflectiram desde logo a vontade de nunca mais, fosse qual fosse o pretexto, permitir que a lei se sobrepusesse aos direitos e garantias essenciais dos cidadãos de uma democracia. Mas é impressionante verificar como as sucessivas revisões do CPP foram avançando sempre, e perante o conformismo geral, no sentido de diminuir essas garantias e direitos. Os pretextos foram sempre os mesmos: o excesso de trabalho dos investigadores e a complexidade crescente da criminalidade — não obstante nunca, como hoje, a investigação criminal ter disposto de tão amplas capacidades: desde a cooperação internacional institucionalizada, passando pelo acesso ilimitado ao segredo bancário dos suspeitos e às suas transacções financeiras, continuando nos meios de vigilância electrónica, nas escutas à distância, no cruzamento de dados por via informática, na localização instantânea ou remota de alvos e em tudo o mais que nem sequer sabemos. Todavia, passo a passo, na lei ou na prática, a investigação foi conquistando paulatinamente terreno às garantias dos investigados: prorrogação sistemática dos prazos a favor do Ministério Público (MP), em contraste com os da defesa, que são peremptórios; banalização das buscas domiciliárias, bastas vezes feitas sob a forma de impressionantes operações mediático-militares destinadas a humilhar publicamente os suspeitos; apreensão rotineira dos telemóveis e computadores pessoais dos buscados, hoje em dia instrumento indispensável de gestão da vida profissional e pessoal de cada um; banalização do recurso à detenção prévia para interrogatório, por vezes durante dias, até que o juiz tenha uma aberta, mas desde logo espalhando a convicção de que, se fulano foi preso, deve estar metido numa alhada; violação selectiva e sistemática do segredo de justiça para a imprensa, de modo a ir-se fazendo, desde logo na praça pública, a condenação que se prevê difícil de conseguir no tribunal; leviana facilidade no pedido de prisão preventiva de suspeitos, com a dupla função de acentuar a ideia da sua culpabilidade junto da opinião pública e de tentar, por esse meio, forçar confissões, dispensando mais trabalho; acusações crescentemente baseadas na chamada “prova indirecta”, que não é prova nenhuma mas simples conjecturas e suposições pessoais, fazendo tábua rasa do princípio do ónus da prova da acusação, e, claro, a montante e de forma sistemática e absolutamente vulgarizada como coisa inócua, as escutas instaladas no telefone de qualquer um que um procurador do MP entenda ser suspeito de um crime.

Normalizando o abuso
Ilustração Hugo Pinto

Sobre isto, e para melhor se medir a distância entre o que a lei estabelece como excepcional e o que a prática entre nós consagrou como banal, vale a pena atentar no que diz o artigo 187º do CPP sobre a “admissibilidade” das escutas. Estabelece o seu nº 1 que elas “só podem ser autorizadas (por um juiz de instrução, mediante despacho fundamentado) se houver razão para crer que a diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível ou muito difícil de obter”. Considerando que o MP tomou por hábito iniciar qualquer investigação através de escutas, é impossível acreditar que só recorre a elas como último meio de obter prova do que pretende. Estamos, sim, perante o chamado “método de arrasto”, que consiste em ligar a escuta ao telefone e ficar sentado à espera do que possa vir à rede. Em flagrante violação da lei e do direito à privacidade dos devassados, mas em beneficio da preguiça dos investigadores — ou qualquer coisa de potencialmente pior ainda. No case study de João Galamba, que deve ser estudado em todos os cursos de Direito Constitucional e Direito Processual Penal, a ideia com que fiquei é de que o MP começou a escutá-lo sem sequer saber de que crime podia suspeitar e continuou durante quatro ignominiosos anos à espera que a rede trouxesse peixe. Mas como a lei também exige que a autorização do juiz de instrução à escuta seja renovada a cada três meses, e sempre fundamentadamente, eu pasmo perante um juiz que a renovou 16 vezes sem que até hoje o suspeito tenha sequer sido interrogado… Mas também pasmo quando vejo gente (por enquanto intocada, e só por isso, talvez…) que justifica a manutenção das escutas a António Costa no processo Influencer mesmo depois de um juiz do Supremo as ter declarado irrelevantes para o processo e sem qualquer relevância criminal, pelo facto, posterior, de através delas se ter ficado a saber que o ex-PM afinal terá despedido a CEO da TAP por razões políticas e não jurídico-laborais. Ora, a mim parece-me que o lugar de CEO da nossa única e pública companhia aérea, onde se tinham injectado €3,2 mil milhões dos contribuintes, é um lugar político quer para a nomea­ção quer para a demissão, sendo tal invocável como justa causa de despedimento. Mas o que acho notável é que, avaliando pelo resultado e pela decisão, certa ou errada, de António Costa, se ache que tal justifique a manutenção nos autos de uma escuta em que um PM discute com um seu ministro uma decisão corrente de governo. Que mais acharão legítimo escutar, guardar e divulgar? As conversas dos outros líderes políticos? Dos dirigentes empresariais e sindicais, das chefias militares, dos jornalistas, do cardeal? E para que fins?

Há dias fui apresentado televisivamente à nova ministra da Justiça, Rita Júdice. Qualquer ténue esperança que eu ainda pudesse ter de que a ministra se atrevesse a enfrentar o poder insindicável de cada procurador do ­DCIAP e da PGR e, talvez até, a ensaiar, à boleia do “Manifesto dos 50” (de que sou um dos subscritores), a reforma que reclama a sociedade civil, que não se verga à chantagem dos justiceiros e do Chega, caiu redonda em dez minutos. Não só a ministra se mostrou absolutamente curvada perante o MP e a sua triste procuradora-geral, como ainda anunciou, à conta do pacote anticorrupção, mais dois instrumentos legais (ou ilegais) que, mais uma vez, diminuem os direitos e garantias de quem tem de se defender e servem a preguiça de quem tem de acusar. Um é a delação premiada, que Sergio Moro celebrizou no Brasil, e que, de tão usada no processo Lava Jato para tentar em vão chegar a Lula da Silva, levou toda a gente na Odebrecht a deletar-se uns aos outros de baixo para cima, acabando no próprio CEO, Marcelo Odebrecht, querendo deletar alguém sem saber quem. Para além das questões de natureza ética e de justiça que coloca a delação premiada, há uma sem resposta: quem pode garantir que o delator premiado não está a mentir apenas para se safar? A outra medida anunciada e a aplicar nos processos de corrupção é a do confisco dos bens do suspeito mesmo sem condenação nem julgamento. Exemplificou a ministra, toda contente: um processo que prescreve e em que o suspeito já não pode ser julgado — confiscam-se-lhe os bens. Brilhante: em lugar de legislar para evitar a prescrição, em lugar de obrigar o MP a cumprir prazos, dá-se uma sentença condenatória mesmo sem julgamento. E se por acaso um procurador, que funciona em total e sagrada autonomia, embirrando com um vizinho rico, resolve abrir-lhe um processo invocando suspeitas de corrupção e depois o faz arrastar até prescrever e lhe poder deitar mão aos bens?

Quem nos acode? Quem nos acode se os políticos têm medo dos procuradores e estes se acham a reserva moral da nação, a quem tudo deve ser permitido e nada pode ser questionado? Isto está a ficar perigoso, isto está a ficar mesmo perigoso.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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2 pensamentos sobre “Normalizando o abuso

  1. E os franceses vão fazer o mesmo que fizeram os italianos. Votar a extrema direita a pensar que assim pouparao os seus filhos a morte nas estepes da Ucrânia, os seus bolsos a inflação porque e preciso sancionar a Rússia e os seus direitos sociais a necessidade de gastar mais dinheiro em armas para mandar para a Ucrânia.
    Para esta noite ouvirem a Le Pen convertida a necessidade de apoiar a Ucrânia, reforçar a NATO e destruir a Rússia.
    O mesmo acontecerá na Alemanha mas próximas eleições e o mesmo acontecera em todo o lado.
    Tal como nos Estados Unidos e preciso fascismo no poder para podermos impunemente continuar políticas de saque e pilhagem dignas de ditadores e bárbaros.
    A história nao dirá que foram liberais e democratas que permitiram um genocidio sionista ou que promoveram a pilhagem da Rússia.
    Foi por isso que demos fogo a extrema direita em todo o lado.
    Se a Rússia se deixará destruir ou se lutará contra nós e nos vencera como aconteceu com Hitler não me vou deitar a adivinhar.
    Isto e que vai aqui uma açorda…

  2. Bem,o estado do país é assustador,por isso agora não é altura de ter medo ou esperança. As coisas vão seguir o seu curso até ao fim, porque tudo o que estamos a viver faz parte de um processo histórico e não do destino. Por isso, quer passemos de um regime autoritário para um regime fascista, não sairemos da confusão que nos colocou tão perto da catástrofe. Vamos ter seriamente de continuar a “lutar,resistir e combater”.

    Nunca pensei viver um momento como este na história … liberdade de expressão de hoje preocupa-me,como a perda da liberdade.Tenho um enorme ressentimento contra os nossos políticos de todos os quadrantes, que durante décadas surfaram a onda política ou para se manterem no poder ou por puro interesse financeiro. Permitiram/escolheram a construção de monstros industriais e mediáticos apenas em nome da globalização, que supostamente se repercutiria financeiramente em todos. O dinheiro já não é um meio de troca, mas sim um poder absoluto, e os bilionários preferem sempre mantê-lo, mesmo que isso signifique fazer um pacto com os extremos. Agora, a luta “a sério” está prestes a começar.

    É possível que o Ocidente em geral, e não apenas o nosso país, esteja a dizer adeus à democracia. Está a acontecer de forma mais ou menos suave, ou mais ou menos dolorosa, dependendo da situação, mas está a acontecer em quase todo o lado.

    Como sabem, o problema da democracia é que ela traz em si as sementes da sua própria destruição: com o pluralismo de opiniões e a liberdade de expressão, tem o dever de dar espaço aos seus detractores que a querem derrubar.

    A ideia é fazer com que “o povo” diga que está farto de democracia e que prefere regimes mais apimentados e com menos confusão, porque debates onde não se percebe nada e onde é preciso fazer o esforço de ouvir e tentar perceber e até questionar, duvidar, verificar e criticar,isso é para os outros!

    Até os meios de comunicação social contribuem para o empobrecimento intelectual e reflexivo dos nossos cidadãos… a morte dos serviços públicos e o frenesim político de “denunciar a ineficácia dos serviços públicos que nos roubam os impostos a troco de nada” também estão lá para normalizar a aceitação da abordagem totalmente liberal.

    Portanto, sim, com o aparelho mediático certo, é possível levar as pessoas a irem contra os seus próprios interesses.

    Existe também um conluio entre o mundo dos jornalistas e o da política. Para não falar do mundo judicial, que está completamente infiltrado. . A nossa democracia já está muito doente.

    É fácil ver como se entra neste mundo, mas é mais difícil sair dele…
    Pasolini previu-o: o consumismo vencerá onde o fascismo falhou.
    O problema é que já lá estamos. E se vai mais longe, é porque, em vez de fazer o seu trabalho, o serviço dos média preferiu “mergulhar nas águas geladas do cálculo egoísta”, deixando que os seus membros se proclamem parte da doxa política para bajularem as suas próprias carreiras .

    Embora a minha preocupação com o futuro de Portugal e da nossa democracia seja real e esteja presente há uns bons 15/20 anos (sim, acreditem , eu previ tudo, ) Nada me tinha preparado para a dimensão sem precedentes da catástrofe que vem a caminho, mas sobretudo para a impressão que todos temos de não ver NENHUMA SAÍDA desta peça tragi-cómica que se desenrola perante os nossos olhos atónitos, não vemos o fim (ou… será apenas o princípio??). Apenas nos apercebemos de que estamos inevitavelmente a caminhar para ele, sem outra saída, e é absolutamente violento.

    Na minha maneira de ver as coisas penso que a democracia já não existe em Portugal porque só podemos eleger pessoas que depois não são responsáveis.

    Com efeito, quem, de entre eles, levantou um dedo para dizer basta à plandemia e às medidas tomadas pelos governos, às máscaras, aos confinamentos, às vacinas não verificadas, às compras insanas pela Europa (ou melhor, por Leyen) de doses da big pharma?

    O que me impressiona nos ocidentais é que falem de democracia e queiram dar lições de democracia quando as maiores ditaduras do mundo estão no Ocidente, e a prova disso é como explicar a pessoas que são consideradas geridas por ditadores; os EUA, o país que gere o mundo e que é considerado a maior democracia do mundo, gerido por Biden que nasceu antes da criação da Terra e que não tem capacidade mental nem física para gerir um país.

    A escola nunca produziu um cidadão esclarecido como nos querem fazer crer, é apenas uma máquina de criar pessoas que se vendem às empresas, formatadas para um pensamento liberal inconsciente, para o frenesim de uma necessidade de consumo constante e de despolitização massiva. Se a isto juntarmos um sistema mediático completamente poluído há mais de 20 anos com entretenimento que entorpece a mente e nos últimos 10 anos com os extremismos das mentes, obtemos os resultados de hoje .

    Agora estamos a passar ao nível seguinte.

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